Luiz Braga olha para o céu
Por Eder Chiodetto
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Autor da mais completa tradução da visualidade amazônica, o artista
paraense volta-se para as estrelas em nova série
Num dado momento do dia amazônico o sol inclemente começa a desmaiar. Vagarosamente o que era intensamente iluminado passa a ser percebido apenas por nuances furta-cor. Em instantes as luzes artificiais do lampião do pipoqueiro, da praça, da barraca de açaí se acendem e transformam a paisagem numa paleta de cores tão peculiares quanto voláteis. A obra do fotógrafo paraense Luiz Braga, em grande parte, se espraia na tradução deste jogo cromático, não apenas pela exegese do belo, mas como uma espécie de antropologia escrita a golpes de luz e cor.
A Amazônia que resulta deste processo, logo, guarda uma considerável distância das imagens pasteurizadas e repletas de exotismos que povoam as publicações mundo afora e o imaginário europeu e norte-americano acerca do lúbrico encontro entre culturas mestiças, o calor constante e a exuberância da natureza. Formado em arquitetura, mas sempre ausente das aulas que aconteciam durante o crepúsculo - como estudar cálculos para a construção de uma ponte enquanto o efeito da luz do céu lá fora se constituía no acesso direto, sem necessidade de pontes, para imaginar e construir mentalmente mundos paralelos, surreais, cinematográficos? Braga, enfim, sem nunca exercer a profissão na prática, a usou como auxiliar do seu olhar na constituição de um senso incomum para a composição do quadro, a relação entre figura e fundo, uma geometria que se quebra e se reorganiza de acordo com os volumes que ele poeticamente decifra na paisagem.
A obra de Braga se afasta da de outros autores que lançaram seus olhos para a mesma região por diversos fatores. Um deles é o rigor formal que o fotógrafo adquiriu ao estabelecer uma técnica no uso de diapositivos (cromos), depois transferida para a digital. Em determinadas situações, o artista percebeu que o filme tendia a distorcer a leitura da luz modificando a tonalidade de algumas cores. Aprofundando e dando parâmetros para esse acaso, Braga conseguiu criar uma forma original e própria de representar seu universo visual. Tal como um escritor que busca a palavra, a frase mais precisa para representar determinada situação, Braga cunhou sua própria luz, uma espécie de assinatura que faz suas imagens serem reconhecidas sem dificuldade em meio às de outros fotógrafos.
Outro fator de distinção do seu acervo fotográfico é o fato de suas imagens transitarem livremente entre os dois lados que delimitam uma obra estritamente documental e uma vertente mais voltada para o experimentalismo, ou fotografia de arte. "Fiz muito pouco do que se espera de um fotodocumentarista da região. Fotografei a minha primeira onça apenas no ano passado. Me incomoda muito esse olhar maniqueísta sobre a Amazônia que por um lado lança sobre ela a visão míope de um lugar sagrado e intocado, a mítica do Eldorado na Terra, e por outro como um foco de doenças, índios injustiçados e confusões com o MST. É preciso transitar por essa realidade de forma mais inteligente. E é preciso fotógrafos que trabalhem essa realidade por outro prisma dentro do fotodocumentarismo. Mas esse fotógrafo, percebi cedo, não sou eu!", disse em entrevista à Pororoca.
Nas novas imagens, o jogo formal e cromático sai do primeiro plano para dar lugar a matizes mais densos que emolduram a movimentação das estrelas, que desenham formas, pinceladas sutis sobre um céu negro. Invisíveis a olho nu, esses rastros luminosos marcam a passagem do tempo
"Sou intuitivo. Essa sina e bênção de nascer, viver e trabalhar aqui formatou meu olhar e minha forma de pensar. Por vezes imaginei ir morar e trabalhar num grande centro, mas a idéia de ficar distante desta luz sempre me impediu de levar esse projeto adiante. Meu trabalho, enfim, é a exteriorização de um encanto. Levei uns 20 anos para perceber isso", completa.
Como um Fellini que recicla a memória infantil dos personagens de Rimini, sua cidade natal, para filmar com poesia e precisão a beleza e os desígnios do homem, Braga faz da atual cidade de Belém e de suas reminiscências de infância, o combustível que o leva a pensar novos projetos.
Assim como Rosa do Arraial (1990) e Babá (1988) - duas de suas fotografias que já estão definitivamente integradas ao patrimônio cultural nacional, como citações de profunda beleza e de grande densidade sobre o modo de vida do povo brasileiro - remetem à sua relação de afeto com a ama-deleite que o ajudou a se criar na infância, a nova série, que flagra o movimento dos astros no céu, paga tributo ao garoto que, com os olhos fixos na televisão, assistia ao seriado Perdidos no Espaço sonhando em ser astronauta.
Se Braga começou a fotografar precocemente, aos 11 anos, muito se deveu ao fato de seu sonho de astronauta, embalado pelas trapalhadas do Dr. Smith, o levar a contemplar o céu de Belém e ficar imaginando suas futuras aventuras intergalácticas.
Agora, aos 51 anos, o arquiteto-fotógrafo-astronauta finalmente alcançou o espaço sideral. Fugindo da estética que o fez ser reconhecido e o levou a realizar mais de 70 exposições mundo afora entre individuais e coletivas, mas que também começou a cristalizá-lo de forma reducionista como "fotógrafo da Amazônia", o artista se reinventou nesse olhar que tem dois vetores: para trás (seu passado infantil) e para cima (o céu). Batizada Longa Exposição, a nova série foi premiada em 2007 no 14º Salão da Bahia.
Razões menos poéticas também levaram o artista a perder de vista o horizonte e a paisagem humana: "Está muito difícil fotografar nas grandes cidades. A violência, mesmo ausente, se faz presente no nosso medo de se relacionar com o outro. Isso mudou muito nos últimos anos. A tensão é permanente. Não me sinto mais confortável. Minha fotografia é fruto de uma delicadeza no trato com as pessoas, com o mundo. É isso que me permitia ter uma relação epidérmica com meus personagens. Não consigo fotografar se a delicadeza não for a razão de tudo
Como não só as auto-referências impulsionam a obra de um artista, Braga percebe que esse seu novo trabalho surge num momento em que as relações sociais se tornam mais árduas. Há, portanto, razões menos poéticas que também levaram o artista a olhar para o céu e perder de vista o horizonte e a paisagem humana: "Está muito difícil fotografar nas grandes cidades. A violência, mesmo ausente, se faz presente no nosso medo de se relacionar com o outro. Isso mudou muito nos últimos anos. A tensão é permanente. Não me sinto mais confortável. Minha fotografia é fruto de uma delicadeza no trato com as pessoas, com o mundo. É isso que me permitia ter uma relação epidérmica com meus personagens. Não consigo fotografar se a delicadeza não for a razão de tudo", diz.
Entre o pensamento crítico e a busca de uma representação pautada pela subjetividade que o leva a olhar para dentro de si, Braga gerou uma guinada no seu trabalho. Nestas novas imagens, o jogo formal e cromático sai do primeiro plano para dar lugar a matizes mais densos que emolduram a movimentação das estrelas que desenham formas, pinceladas sutis sobre um céu negro. Invisíveis a olho nu, esses rastros luminosos marcam a passagem do tempo. Entre o início e o fim desses vestígios prateados repousa não um instante único, mas a somatória de um tempo transcorrido. A metáfora da vida. Uma nova vida, enfim.
