Pororoca

Por Rogério Assis

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Esperada e conhecida, a onda de maré até serve de plataforma para um novo esporte, o surfe na pororoca. Mas não nega sua natureza traiçoeira jamais

Encalhou!!! Encalhou!!! Encalhou!!!! Pula, larga o bote!!!

Foram as últimas palavras que ouvi antesde ser engolido, junto com minha câmera, por uma onda de mais de dois metros de altura. Estava em pleno Canal Perigoso - o nome não podia ser mais apropriado -, assistindo ao Primeiro Campeonato Feminino de Surf na Pororoca. Já conhecia a ficha do monstro: uma onda nascida do choque entre os rios eo mar, na foz do Amazonas, que pode chegar a seis metros de altura e correr a até 50km/h, arrastando o que encontra pela frente. Só não esperava ter de enfrentá-lo.

A aventura começou 30 horas antes, quando 27 pessoas, entre atletas, jornalistase o pessoal da Associação Brasileira de Surf na Pororoca, que organiza o campeonato, partiram de Belém a bordo do iate AtakanIII. O barco navegou 15 horas, passando por sete municípios da Ilha do Marajó e cruzando rios, estreitos e furos com nomes para lá de exóticos, como Furo da Mucura, rio Jacaré Grande, rio Companhia e estreito de Breves. Perto do Canal, ancoramos em uma fazenda para passar a noite. Na manhã do primeiro dia de campeonato, a pororoca era esperada por volta de 9h.

Saímos cedo em botes de alumínio, com motor de popa, em direção ao Canal Perigoso, que fica entre as ilhas Caviana e Mexiana, na costa atlântica do arquipélago do Marajó. No trajeto, começam a surgir histórias sobre a pororoca; umas verídicas, outras nem tanto. Alguém lembra do famoso campeão de surfe que diz ter passado mais de 45 minutos sobre a onda amazônica, contra o recorde oficial, registrado no Guiness Book. , de 34'10'', de Sérgio Laos. Uma lenda diz que quem assiste à pororoca sozinho, de perto e sem permissão da natureza, vê três crianças de pele escura brincando sobre a onda. Há quem jure que já as viu mais de uma vez.

BICHA BRABA

De verdade, sabe-se que o nome do fenômeno vem de poroc poroc, uma onomatopéia indígena para "destruidor" ou "grande estrondo". Causadas pelo choque entre as águas do mar e dos rios, mais rasas, as ondas nascem no encontro de águas doce e salgada e entram no continente, violentas e caóticas. Podem ficar mais de uma hora em atividade e percorrer 30 quilômetros, destruindo as margens dos rios, arrancando árvores enormes pela raiz e arrastando de animais desatentos a grandes pedaços de terra.

A pororoca acontece em mais de 30 lugares mundo afora, mas nunca com a intensidade do delta do Amazonas, onde pode ser vista de São Domingos do Capim, Pará, à foz do Araguari, no Amapá. É mais forte ainda no início do outono e da primavera, quando o mar sobe e o desnível em relação aos rios chega a sete metros, e nas luas nova e cheia. "Quando é lua cheia a gente leva os bichos para bem longe da margem", conta o vaqueiro José Firmino, que vê a pororoca passar em frente à sua casa quase todo dia.

Os relatos de perda material e de vidas humanas são comuns entre os habitantes da região. "Meu pai vinha de Belém com o barco da fazenda cheio de mantimentos. Parou em Chaves pra deixar um amigo e perdeu a maré. Não quis esperar o outro dia seguiu viagem e foi pego pela pororoca. Graças a Deus conseguiu se salvar", conta o aposentado Justiniano, que vive na cidade de Chaves, Marajó, em frente à Mexiana. "A bicha é braba, não avisa. Quando o caboclo vê, já era."

uma onda que nasce do choque entre os rios e o mar, na foz do amazonas, a pororoca pode chegar a seis metros de altura e correr a até 50km/h, arrastando o que encontra pela frente

O GRANDE ESTRONDO

A espera pela pororoca é tranqüila e silenciosa. Na paisagem calma, de natureza abundante, o tempo demora a passar, como se os relógios tivessem preguiça. A beleza, as cores intensas, a vida selvagem, tudo pára. Ficamos nos botes, dentro da água, prontos para largar ao primeiro sinal da onda. Depois de uma hora e meia, um barulho gutural, constante e ensurdecedor pára as conversas e anuncia sua chegada. Uma revoada de pássaros passa, assustada pelo estrondo. Então a água vem, com fúria, num volume inacreditável. Vê-la de perto pela primeira vez é emocionante.

Os botes largam à mesma velocidade da pororoca, e deslizam pelo canal cerca de 20 metros à sua frente. São quatro. No primeiro, vai o prático local, um cinegrafista e uma bateria de competidoras, com duas surfistas. Atrás, vão os outros três, carregando as outras atletas, organizadores, juízes e nós, da imprensa. Cada um tem seu piloto. Aos poucos, vão soltando as baterias de surfistas, que tentam como podem ficar em pé sobre a prancha em cima da onda enorme. Só duas, das seis, conseguem. 

Pilotos e organizadores vão passando instruções de segurança. Os mais experientes orientam, e os calouros, como eu, escutam. É um papo meio chato, mas depois dessa, vou prestar mais atenção ao que dizem as aeromoças. Até minutos antes do acidente, Denis Sarmanho, juiz principal da competiçãoe um dos meus colegas de bote, repetia: "Se o barco encalhar, pula na água imediatamente e mergulha para passar as ondas que vêm na seqüência. Não luta; deixa a onda te levar até ela perder a força".  

As palavras ainda ecoavam no meu ouvido quando os gritos anunciam o perigo. Os barcos encalharam juntos. Na hora, não penso em nada. Pulo. Com uma calma que não sei deonde vem, sigo à risca as orientações; fico mergulhado por 40 segundos, deixando passar a cabeça da onda; depois emerjo e me deixo arrastar. Por mais de 800 metros, me sinto uma meia rolando dentro de uma máquina de lavar roupa. Tudo dura cinco minutos, que parecem cinco anos, mas fico vivo para contar a história.

AUERA AUARA

Aos poucos, a onda passa e conseguimos nadar até a margem, que, por sorte e azar, estava perto. Sorte porque eram poucos metros para vencer; azar porque foi justamente esse o motivo do encalhe. Das doze pessoas que tiveram de pular na água, todas escaparam e ninguém se machucou com gravidade. Já o susto, "A pororoca não avisa; simplemente chega. Àquela altura eu já estava100% convencido da propriedade da frase, recorrente nas conversas com os caboclos locais" esse foi enorme, forte como a pororoca. Com as provas suspensase a adrenalina a mil, voltamos para o iate. Inútil tentar buscar explicação para o acidente; melhor relaxar e comemorar a vida.

À noite, ancorados na fazenda de um amigo do evento, assistimos a um ritual inventado pelo produtor Marcelo Bibita. O Auera Auara, saudação que não quer dizer nada, faz uma releitura da lenda da pororoca. Três meninos sujos de lama dançam em volta de uma fogueira, pedindo permissão da mãe natureza para enfrentar a onda. O ritual acaba e eis que a furiosa faz uma aparição extra, de intensidade inesperada. Arrasta o iate, amarrado no ancouraduro da fazenda, e o arremessa violentamente contra o deck da popa. Mais um corre-corre: o comandante consegue controlar o iate e salvar três botes que, por pouco, não são esmagados.

A pororoca não avisa; simplemente chega. Àquela altura eu já estava 100% convencido da propriedade da frase, recorrentenas conversas com os caboclos locais. No dia seguinte, Ricardo Fernandes, diretor de marketing do evento, reuniu os participantes para combinar o que faríamos no segundo e último dia da competição. A turma da imprensa - além de mim, Vianey Bentes e Emanuel Alves, da Produtora Brasil Vídeo, e o australiano Matt Whitt, que também perderam parte do equipamento -, e duas surfistas não classificadas resolvem assistir ao fenômeno da margem.

"A pororoca não avisa; simplementechega. Àquela altura eu já estava100% convencido da propriedadeda frase, recorrente nas conversascom os caboclos locais"

Os outros, diretamente envolvidos na competição, vão para o meio do canal à espera da onda. Dessa vez, como em um filme hollywoodiano, tudo dá certo. Não há acidentes e as atletas conseguem mostrar sua destreza na pororoca. O campeonato termina com a vitória da cearense Rafaela Bahia, e o diretor geral do evento, Noélio Sobrinho, veterano de mais de 30 pororocas, comemora gritando Auera Auara! sem parar. O ritual da noite anterior, embora sem nenhum fundamento - histórico, religioso ou antropológico - acabou surtindo o efeito desejado.

PS Da margem, vendo a onda arrastando uma árvore dez vezes maior do que eu, tenho uma noção melhor do que enfrentei. Ver a morte de perto certamente me fez dar muito mais valor à vida. Não só à minha, mas à vida no sentido mais amplo.