Livro-vídeo celebra 25 anos de Vídeo nas Aldeias
Um livro-vídeo bilíngue, com depoimentos, ensaios críticos e fotográficos e mais de seis horas de filme, celebra os 25 anos do projeto Vídeo nas Aldeias, que apóia e fomenta a produção de vídeo entre aldeias indígenas no Brasil desde a década de 1980. A publicação, patrocinada pelo banco Itaú, pela Natura e pelo programa Cultura Viva do Ministério da Cultura, reconta a história da iniciativa, que já produziu registros de 37 povos, oficinas em 127 aldeias e filmes premiados no Brasil e no exterior. O mais recente, Bicicletas de Nhanderú, imersão no cotidiano dos Mbya-Guarani (RS), foi exibido no lançamento, dia 12 de dezembro, às 19h30, no Itaú Cultural, em sessão seguida por debate com realizadores indígenas.
Criado pelo fotógrafo, cineasta e indigenista Vincent Carelli, diretor de Corumbiara (melhor filme no Festival de Gramado em 2009), o Vídeo nas Aldeias pôs as primeiras câmeras VHS a serviço de uma ideia inovadora: apresentar às aldeias um instrumento acessível de expressão e preservação de memória, apoiando-as na criação de um jeito próprio de lidar com o meio.
Vídeo nas Aldeias 25 anosIdealizado como um conjunto de textos, imagens e filmes que se complementam numa leitura rica e fascinante, Vídeo nas Aldeias – 25 anos reflete sobre cinco dos encontros mais significativos promovidos pelo projeto, com os índios Ashaninka (AC), Kuikuro, Xavante (MT), Huni Kui (AC) e Mbya-Guarani (RS). Em cada segmento, índios e equipes do projeto discutem o trabalho conjunto, recompõem o processo de gestação dos filmes e comentam repercussões e desdobramentos.
Mais do que detalhes factuais, os depoimentos revelam o impacto da chegada do vídeo às aldeias: a apropriação do meio incita à retomada de rituais esquecidos, evidencia disputas políticas entre facções diversas, expõe conflitos geracionais; mais do que tudo, possibilita projetar para o mundo uma imagem mais fiel dos realizadores.
"Quando apresentamos um trabalho, as crianças perguntam muito se esses índios existem mesmo. Os livros didáticos nos mostram como a gente era antigamente, ou seja, nesses livros nós não existimos mais. O vídeo vem acabar com essa distorção. Nós existimos, estamos aqui, nossa terra existe e nós nunca vamos ser brancos", diz o cineasta Xavante Caimi Waiassé.
Vídeo: ferramenta e linguagemA preciosa coleção de filmes que integra o livro, acomodada em dois DVDs, atesta a diversidade de usos imaginados para o vídeo nas oficinas com as aldeias. Algumas encenam mitos; outras usam a ferramenta para promover encontros interculturais. Alguns filmes tratam de territórios e culturas ameaçados; outros servem de mote para a retomada de traços culturais perdidos. A preocupação do projeto em introduzir os realizadores indígenas às possibilidades expressivas do vídeo também transparece nos filmes, que, não por acaso, foram premiados em festivais que não se limitam ao cinema etnográfico.
"Os monitores de Vídeo nas Aldeias não assumem uma posição ingênua, conforme a qual bastaria colocar uma câmera nas mãos de alguém para que consiga retratar a sua vida; é necessário aprender a usar o equipamento e conhecer a linguagem", afirma o crítico Jean-Claude Bernadet em Vídeo nas aldeias, o documentário e a alteridade, um dos artigos nos quais antropólogos e cineastas analisam filmes do projeto.
Para o ensaísta Henri Arraes Geraveau, os filmes configuram quase um gênero à parte. "Ao assistir, em 1990, ao Espirito da TV, tive a imediata sensação de que Vincent tinha iniciado frutífera travessia documentária, abrindo caminho para uma antropologia da comunicação audiovisual, ao centrar a narrativa do vídeo no encadeamento das reflexões, fabulações e declarações verbais dos índios Waiãpi frente à exibição, num aparelho de televisão instalado na aldeia pela equipe, de sua própria imagem e sobretudo de imagens registradas por terceiros, não índios, sobre outros grupos indígenas."
Entre os filmes produzidos pelo VNA estão, O Espírito da TV (1990), A arca dos Zo’é (1993), Eu já fui o seu irmão (1993), Shomôtsi (2001), MARANGMOTXÍNGMO MÏRANG, Das crianças Ikpeng para o mundo (2001), Kinja Iakaha, Um dia na aldeia (2003), IMBÉ GIKEGÜ, Cheiro de Pequi (2006), PI’ÕNHITSI, Muheres Xavante sem nome (2009), KENE YUX˜I, As voltas do Kene (2010), Bicicletas de Nhanderú (2011).
