O Pagé das Tramas
Por Jackson Araujo
Lino Villaventura transforma escama de pirarucu em paetê e recria o emaranhado caótico de texturas da floresta numa obra que dialoga com a força da manufatura em plena era da massificação e do fast fashion
Nascido em Belém do Pará, o estilista Lino Villaventura carrega em suas criações de moda uma essência verdadeiramente amazônica. Sua obra revela traços da força de um ecossistema que se reinventa para permanecer vivo e pulsante. Na floresta, a abundância das chuvas dá aos rios novos volumes e prepara a natureza para um ciclo de fartura. Na moda, a sazonalidade das roupas anuncia a chegada de um novo tempo. A abundância só se manifesta para quem consegue, com criatividade, domar os caprichos dessa senhora do tempo.
A floresta de Lino Villaventura sugere um mergulho nas profundezas de rios e igarapés, uma exploração íntima na fauna e flora que alimenta o criador. O mitológico universo do mais brasileiro dos designers de moda é um convite para a reflexão sobre o papel da cultura popular na construção de um imaginário único, manifestado em tons e texturas, perto da exuberância da natureza e longe do simplismo de um olhar folclórico óbvio.
A trilha sugere atenção. Há icamiabas pelo caminho. Com elas, Lino aprendeu a modelar nas próprias mãos os muiraquitãs, amuletos verdes, a partir da matéria-prima arrancada das profundezas do Iaci-Uará, o lago-espelho da Lua. É desse céu líquido, palácio subterrâneo de joias, templo de mistérios noturnos, que ele, primordialmente, extrai suas inspirações para a elaboração de um paraíso alegórico, onde habitam sereias de sedução mortal. As mulheres-Iara de Lino são assim: emboscadas de paixão, decotadamente sensuais, curvilíneas, fascinantes. Sugerem a ilusão aterrorizante da paixão.
Fundamentadas na mitologia amazônica, suas criações podem ser lidas como uma reinvenção do princípio decorativo da indumentária dos índios brasileiros. Sob a luz da Lua, símbolo do tempo vivo, o estilista extrai das águas as escamas de peixe – que, desidratadas, ganham a tonalidade verde dos muiraquitãs – para bordar o corpo das sereias. Cheia de vida, a escama é um paetê sem o brilho artificial do metaloide. Traduz o reaproveitamento natural do que se joga fora e hipnotiza pela dualidade do rústico e do glamouroso.
Lino aprendeu com a floresta a reaproveitar os próprios descartes. Sua obra inicialmente foi fundamentada pelo patchwork criado a partir dos recortes que sobravam das modelagens. Pedaços de tecidos emendados, recosturados, bordados e rebordados foram, no decorrer de trinta anos, criando novas peles sobre os corpos, como as árvores que deixam à mostra as marcas do tempo. Da natureza, o estilista também colheu cascas de semente de guatambu aplicadas sobre vestidos de tule metalizado. E, ainda, exóticos grãos vermelhos e escamas de pirarucu, usados em nobres bordados a decorar cabeças que embarcaram para o Japão, ainda nos anos 1980.
Cada desfile é uma celebração. Lino faz da passarela a praça central da aldeia, palco de oferendas à moda, onde serve o cauim para embebedar homens dispostos à surpresa, tirando o fôlego dos que não temem o seu maravilhamento. Artesanalmente, o estilista alimenta o espírito do alquimista, inventor de tramas e tonalidades.
Como pajé, propõe um estado alterado de consciência, induzindo a visões premonitórias sobre o que está por vir, já que, liberto das amarras convencionais dos ditames internacionais, sua criatividade proporciona a embriaguez visionária. Em sua orgia ritualística, Lino oferece mais que vestes frágeis a se dissolver no ar pelo simples sopro de um vento quente de verão ou pelas gotas geladas de uma tempestade no final de tarde em sua Belém natal. Sua moda é sólida como uma castanheira e confere ao luxo seu maior valor: a durabilidade em materialidade e em êxtase.
E o que dizer das cores que pintam os corpos dos seres fantásticos exibidos pelo designer a cada estação? O vermelho do urucum é o tom que melhor simboliza o sangue vivo de sua costura: tinge com vigor, entra pelos poros, confere à pele um status de canvas para a arte corporal. Lino usa as tintas da natureza na elaboração da pintura tribal orquestrada por uma cartela de tons favoritos em que, além do vermelho-urucum, figuram o preto-jenipapo, o branco-tabatinga, o roxo-açaí. Em cada maquiagem, a pintura do corpo serve como poderosa aliada para a comunicação de desejos. Seja nos olhos delineados com fios negros, nas têmporas avermelhadas pelo calor ou nos lábios sedutoramente manchados pela tinta da juçara. Barbantes de algodão fiados para os braceletes indígenas servem de condutor no desenho de bordados. O tom iridescente da madrepérola dos caramujos inspira o uso de nobres cristais. A plumagem das araras sugere a trama de enormes saias como mantos sagrados. O trançado das palhas elabora vestidos e corsets dourados de rainhas. Fios de índigo puro tecem verdadeiras cestas para o corpo. Peles de serpente adornam cabeças e pés como joias. Tudo em Lino dialoga com a força da manufatura, símbolo máximo de excelência e diferenciação estilística em tempos de massificação e fast fashion. O tratamento único que dá às peças traduz o perfume exótico do patchuli e a graça preciosa das pétalas da vitóriarégia que floresce nas águas calmas ao luar.
Observador da natureza, Lino compreende a importância do enfeitar dos corpos para a sedução e segue cobrindo-os com traços geométricos e abstratos, simétricos ao extremo ou nervosamente desalinhados. As nervuras milimetricamente traçadas e costuradas manualmente sobre os tecidos traduzem uma perfeição artesanal tão obsessiva que pode cegar ou convidar a alucinações com o corpo em temperatura normal: teias de aranha ou ninhos de uirapuru; raízes densas ou galhos em profusão; majestosos rios ou exuberantes igarapés decorados com aguapés. Sua paixão pelo emaranhado caótico de texturas da floresta resume o que há de mais amazônico em sua obra, uma avassaladora pororoca de emoções, um energético tacacá local com sabor global.
