Operação Tracajá

Por Teté Martinho  Fotos Rogério Assis

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Como um programa que já ajudou mais de meio milhão de tracajás a sobreviver a seus predadores, o homem incluído, está colocando os conhecimentos dos excaçadores a serviço da proteção da espécie

Iguaria da culinária cabocla desde sempre, o tracajá tornou-se objeto da cobiça de traficantes de animais silvestres e teve parte de suas áreas de desova invadidas pelo gado 

No domingo mais importante do ano, a comunidade do Aninga, vizinha menos famosa de Parintins (AM), compartilha a primeira missa do dia com convidados especiais. Acomodados em uma bacia, sobre uma cadeira extra, um punhado de filhotes de tracajá espicha as cabeças minúsculas, cobertas de pintas amarelas, na direção das bênçãos do padre Benedito Marchao – e em todas as demais. Decerto não imaginam que, ao mencionar a esquecida passagem de Paulo e o paralítico, do Novo Testamento, ele está falando delas. “Como o paralítico que teve fé, levantou e andou, aqui alguém teve fé e levou adiante esse trabalho.”

O trabalho, no caso, é o esforço empreendido por membros da comunidade, o padre incluído, para reverter a situação da tartaruga, que ameaçava desaparecer da região no fim da década passada. Não é novidade, e nem foi só lá: iguaria da culinária cabocla desde sempre, o tracajá tornou-se objeto da cobiça de traficantes de animais silvestres nas últimas décadas e, mais recentemente, teve parte da sua área de desova preferida, a várzea dos rios, invadida pelo gado. De abundante, ficou rara e começou a sumir do lago em torno do Aninga.

O fato alarmou os chefes de algumas das 60 famílias da comunidade. Convencidos de que tinham algo a ver com ele, começaram a se mexer – inspirados, no começo, só pela intuição. Hoje, pelo oitavo ano consecutivo, o Aninga faz festa para devolver à natureza um milhar de filhotes de tracajá, recolhidos ainda nos ovos e criados a salvo de traficantes, bovinos e predadores – gaivotas, gaviões, piranhas, traíras, sanguessugas, jacarés – até ter condições mínimas de enfrentá-los. Só este ano, são 1.250 filhotes. Desde 2000, já foram 18 mil.

O número impressiona, mas é uma fração pequena dos 756 mil filhotes de tracajá que foram soltos nos últimos nove anos pelo projeto Pé de Pincha, o programa de extensão da Universidade Federal do Amazonas que está por trás do repovoamento do bicho no Aninga e em outras 85 comunidades do Amazonas e do Pará. O Pé de Pincha nasceu em 1999, em resposta a um pedido encaminhado por moradores de Terra Santa (PA) à universidade, em Manaus. Os tracajás estavam sumindo e eles queriam saber o que poderiam fazer para tentar reverter o quadro.

A partir do pedido, os pesquisadores criaram um sistema de manejo simples, que aumenta as chances de sobrevivência do bicho ao transferir da natureza para a comunidade os cuidados com as ninhadas até que o casco dos filhotes endureça. O processo começa na coleta das ninhadas, na época da desova, em outubro. Transportados cuidadosamente, os ovos vão para chocadeiras, onde ficam até eclodir, em 45 a 60 dias; os filhotes permanecem no berçário por dois meses. De custo baixo – os bichos vivem de capim, peixe de segunda, sobras –, o método é usado para criar outros quelônios ameaçados, como a tartaruga-da-amazônia.

Expertise em borbulhas
Desde 1999, a demanda pelos serviços do Pé de Pincha só fez crescer entre as comunidades do médio Amazonas, onde o projeto centra fogo. “As pessoas nos chamam porque vêem que o bicho está sumindo”, diz Andson de Oliveira, que estuda engenharia de pesca na UFAM, em Manaus, e monitora o projeto no Aninga. Difícil tem sido atender: depois de quatro anos financiado pelo programa Pró-Várzea, do Ibama, o PdP vive de parcerias pequenas com prefeituras locais e com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Amazonas. Falta dinheiro até para financiar a conversão do programa em organização não-governamental, o que dará à universidade maior autonomia para buscar recursos.

Triste para um projeto com tanto resultado para mostrar – algo que o coordenador Paulo Andrade, da UFAM, atribui ao próprio conceito de cuidado comunitário. “Quando as comunidades são envolvidas no manejo, os resultados são sempre muito melhores do que quando se opta por mudar as pessoas de lugar para preservar uma região ou espécie”, afirma. Mesmo quando o projeto enfrenta resistência, ela não passa do primeiro ano. “Tem gente que diz que não vai dar certo, que é perda de tempo. Mas quando as tartarugas começam a nascer, o coração desmancha”, conta Andson. As crianças são grandes aliadas; aderem assim que vêem o tracajá vivo. “Muitas só conhecem o bicho da panela.”

Demonizar o hábito alimentar não está no repertório do programa. “A gente não tenta proibir as pessoas de comer o bicho”, explica Andrade. “Mas ensinamos a poupar a fêmea e os ovos.” Além do respeito pela cultura ribeirinha, é fundamento do Pé de Pincha associar preservação, organização comunitária e geração de renda. As comunidades que se envolvem com o programa têm direito a ficar com 30% da produção; a criação comercial (que precisa ser regulamentada pelo Ibama) é estimulada, assim como a exploração turística de parques de quelônios.

Mas talvez o maior trunfo do Pé de Pincha – que deve seu nome a uma gíria local para tampa de refrigerante, parecida com as pegadas que o tracajá deixa no chão – seja saber usar a expertise dos ex-predadores em benefício da preservação. “Eles se tornam parceiros”, concorda Andson. Como na hora de coletar as ninhadas, quando os pesquisadores se embrenham na várzea com os comunitários, de rabeta, para seguir rastros e achar as covas. “Os caras são feras para localizar os ninhos. Conhecem o bicho pela borbulha”, entrega.

Os convertidos
Quando a missa acaba, antes das 9h, o líder comunitário Newton Matos está voltando de uma incursão ao lago plácido que cerca a comunidade. Traz no lombo da rabeta a decoração da festa anual de soltura das tartarugas, colhida para além do aningal que dá nome ao lugar. Oito enormes vitórias-régias enfeitarão o pequeno píer de onde os tracajás, antes do fim do dia, partem para a natureza. Newton tem papel de destaque no evento. Com Benedito e os irmãos José Maria e José Carlos Reis, integra uma espécie de núcleo duro da defesa do tracajá no Aninga.

O grupo gosta de se denominar “os convertidos”, às gargalhadas. Isso significa que, antes de virar babás de tartaruguinhas, eles gostavam era de caçar seus familiares. “A gente não tinha limite. Comia mãe, pai e filho”, conta José Maria. Se é bom? “Muito gostoso. O caboclo faz até sarapatel dentro do casco.” “Achávamos que o que Deus criou não acaba”, diz Newton. A crença minguou em 1999. “Começamos a não topar mais com elas na pesca e vimos que a gente tinha contribuído para isso.”

Em vez de pedir ajuda aos universitários, resolveram tentar algo eles mesmos. Na época da desova, saíram atrás de ninhadas e ocultaram as covas que acharam; uma semana depois, mudaram de idéia e voltaram para buscar os ovos. O resultado, para as circunstâncias, não foi mau: 140 chegaram inteiros à comunidade e 40 filhotes vingaram.

Depois da primeira soltura, em 2000, as crianças se animaram e a comunidade começou a aderir. “Quando elas começaram a nascer, me deu um pensamento”, diz José Maria, o mais filosófico entre os convertidos. “Antes, a gente não deixava isso acontecer.”

A partir de 2001, o Pé de Pincha daria assessoria técnica ao manejo do quelônio na comunidade, ajudando a produzir resultados cada vez melhores e coletando dados precisos ao longo de todo o processo – antes de cada soltura, os filhotes são contados e uma amostra é medida e pesada. Em 2007, o Aninga coletou 106 ninhadas de tracajá, sete delas no lago, onde 

O tanque da comunidade, que abriga tartarugas de todas as idades,
começou a ser testado como atração turística em 2008. Mas o plano
A é fazer do Aninga uma unidade de criação comunitária certificada

 havia anos não se via mais nenhuma. O tanque da comunidade, que serve para a criação e abriga tartarugas de várias idades, começou a ser testado em 2008 como atração turística.

Com uma paisagem deslumbrante, e a 10 km de uma cidade que recebe todo ano 25 mil turistas e 10 mil barcos, para a feérica pendenga dos bois Caprichoso e Garantido, o Aninga é um passeio necessário. Mas o plano A é fazer do lugar mais uma das 31 unidades de criação comunitária que o Pé de Pincha já ajudou a regulamentar na região. Segundo cálculos do projeto, uma criação de 500 tartarugas, em dois anos, rende à comunidade R$ 3.500. O processo de regulamentação é burocrático; só em 2010 o Ibama avaliará o resultado do repovoamento para ver se o Aninga está apto a produzir o quelônio comercialmente.

Até lá, resta vender, se não as tartarugas, o direito de soltar os filhotes criados na comunidade. Na festa em que o domingo se transforma, além de professoras que põem as crianças para desenhar tartarugas, concurso de roupas feitas com jornal e copos plásticos, discurso de autoridades, show de música regional e farta distribuição de galinha caipira, há tíquetes de R$ 1 que dão direito a levar uma tartaruga até a água. Só 30 pessoas arrematam. Na hora agá, sobram filhotes para todos, aos punhados. O píer quase cai sob o peso de tantos libertadores, que se revezam nas digitais para fotografar uns aos outros no ato.

Soltas, as tartaruguinhas de quatro centímetros, parecendo insetos agigantados, atravessam o píer ou exploram as bordas das grandes vitórias-régias antes de saltar – a bem da verdade, cair – para uma vida real e cheia de perigos. Mas que, com sorte, pode durar 90 anos.