O Viajante
Por Márcio Ferrari Fotos Ton Ballardin
O artista Rubens Matuck registra e multiplica o maravilhamento de percursos constantes pela amazônia em cadernos de artista, ilustrações, eculturas e telas.
Rubens Matuck nasceu em 1952 em São Paulo, onde sempre morou. Iniciou sua carreira de ilustrador adolescente e se mantém na área até hoje, tendo colaborado para numerosos jornais e revistas. Formou-se em arquitetura pela Universidade de São Paulo, em 1977, onde direcionou seu interesse para a história do livro e a história da arte. Fez cursos com artistas como Renina Katz, Evandro Carlos Jardim e Samson Flexor; e desde cedo iniciou carreira de professor. Continua dando cursos de história da arte, pintura e gravura, entre outros temas, em São Paulo e nas viagens que faz. Recebeu o prêmio Jabuti em 1993 pelas ilustrações do livro Sapato furado, de Mário Quintana, e trabalhou em parceria com o poeta José Paulo Paes nos livros Olha o bicho e Menino do olho d’água. Com o escritor e tradutor Nilson Moulin, escreveu as biografias de Aldemir Martins, Portinari e Leonardo da Vinci. Produziu uma série de livros infantis sobre ecossistemas brasileiros (A Amazônia, O cerrado, O Pantanal e A caatinga, Ática, 1987). Além de desenhista, ilustrador, pintor, escultor, gravurista e escritor, é também designer, fotógrafo, calígrafo e poeta, embora tenha vergonha de mostrar seus poemas. Além dele e de sua mulher, a editora, fotógrafa e curadora Rosely Nakagawa, há mais três artistas plásticos na família: seus irmãos Carlos e Artur, e Alice, uma de suas duas filhas.
A primeira vez que Rubens Matuck viu a Amazônia foi da Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso, em 1986. Do alto de um platô, o artista alcançou “uma vista de avião” da mata. Era a primeira viagem de reconhecimento da natureza brasileira que fazia – hoje elas somam cerca de 80. Matuck acompanhava uma professora de biologia que conhecia desde criança e funcionava como uma espécie de assistente, na qualidade de botânico amador. Seus vastos conhecimentos sobre plantas tinham sido adquiridos em parte na mais improvável das locações: as ruas da cidade de São Paulo.
Sua viagem seguinte foi para a Amazônia propriamente dita, ainda no Mato Grosso, mas um pouco mais ao norte. Desde então, esteve na região mais de dez vezes, com imersões em aldeias indígenas e longos percursos fluviais. Foram sete dias, por exemplo, para chegar até São Gabriel da Cachoeira, 860 km a noroeste de Manaus, na margem esquerda do rio Negro, “onde pedras enormes emergem das águas”. Outra vez, de Cruzeiro do Sul, no oeste do Acre, chegou pelo rio Jurá ao Peru para conhecer os ashaninkas, que vivem em movimento na fronteira com o Brasil. Em viagens ao coração da selva paraense, conviveu com auaretés e panarás, entre outros povos.
Matuck leva consigo grandes cadernos nos quais registra aquilo que vê: paisagens, animais, plantas, aldeias e objetos. Com o tempo, o material de trabalho foi se reduzindo ao essencial e hoje as linhas são traçadas com esferográfica e os volumes e extensões pintados com aquarela. Nesses livros de artista, gosta da idéia de trabalhar a imagem como informação – tão importante quanto a palavra. Talvez por isso
Quando era criança, o artista adorava os gibis da Disney, que traziam
a seção Maravilhas da Natureza, com fotos e informações sobre fauna
e flora do mundo todo. Até hoje paga tributo à série em seus cadernos
de viagem, com formato semelhante ao das histórias em quadrinhos ou
dos livros de recortes, com imagens que se espalham pela página,
geralmente acompanhadas por pequenos textos
lhe interesse tanto tentar recuperar, de uma forma simbólica, “o grande livro de viagem que nunca foi escrito”: os relatos orais que os povos indígenas transmitiram de geração para geração sobre seus trajetos nômades pelo Brasil e vizinhanças.
Quando viaja, anota informações obtidas em conversas, descreve situações, registra observações e leituras, mas, sobretudo, deixa um testemunho visual. Os cadernos tratam de questões climáticas, culturais, ecológicas, medicinais, do estudo de espécies animais e vegetais isoladas, do artesanato com plantas. Chegam ao fim das viagens acompanhados de pequenas amostras de sementes, folhas, flores e insetos (“mas nunca peguei um bicho vivo”).
A afeição pelo caderno como suporte tem suas razões sentimentais. Uma remonta a seu trabalho de conclusão de curso na Faculdade de Arquitetura, que foi sobre a história da escrita. “O caderno de viagem nada mais é do que um livro como era em suas origens. Com esse formato, a escrita passou a ser um fórum individual”, diz ele. Além disso, os cadernos que Matuck leva nas viagens são confeccionados à moda oriental por sua mulher, a curadora Rosely Nakagawa. As folhas de papel de aquarela de aparência fibrosa são costuradas à mão e um laço de fita preta faz o fecho.
Os cadernos, muito bonitos, são os produtos mais imediatos da acumulação de idéias e conhecimentos que ocorre durante a viagem. A única reprodução direta desse trabalho é o livro Cadernos de viagem (editora Terceiro Nome, 2003). Em geral eles chegam ao público metamorfoseados nas páginas de mais de três dezenas de livros que Matuck ilustrou e escreveu, a maioria voltada para o público infanto-juvenil, entre eles clássicos como Plantando uma amizade (Studio Nobel, 1996), Tudo é semente (Companhia das Letrinhas, 1993, com Carlos Matuck) e A sumaumeira (Ática, 1993). O primeiro título faz parte de sua experiência de cultivo de árvores em São Paulo. O segundo é uma ficção científica que reúne natureza e Santos Dumont. O terceiro é sobre a árvore do título, que simboliza a renovação natural da floresta amazônica.
Uma marca de seu trabalho é o gosto pelas parcerias. Viaja com acompanhantes; e o que registra nos cadernos tem muito a ver com o que falam. Nas expedições amazônicas, teve companheiros como o escritor Milton Hatoum, seu colega na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo nos anos 70. Hatoum o recepcionou em Belém e o acompanhou em algumas entradas. “Ele me deu o mapa da Amazônia e muita idéia que nunca tinha me passado pela cabeça”, diz Matuck. O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro lhe apresentou a cultura dos auaretés, no Pará. E o biólogo João Paulo Capobianco, hoje secretário de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, foi um dos primeiros parceiros de viagem, como fotógrafo e cúmplice.
Leitor habitual de relatos de viajantes, Matuck faz da sensação de deslumbramento o material bruto de suas narrativas imagéticas registradas ali, no calor da hora. Um desses momentos foi, na segunda viagem à Amazônia, descendo o rio Negro, conhecer o arquipélago de Anavilhanas. “Vi um igapó pela primeira vez”, lembra. “É uma floresta no meio do rio, um mistério da natureza. As árvores ficam até 12 metros submersas, então os peixes comem os frutos diretamente das copas.”
Uma das paixões do artista é o buriti, palmeira que dá flor, fruto comestível, madeira e sobretudo uma palha resistente e versátil que em cada região se apresenta de um jeito – “com texturas e simbolismos diferentes” – e serve para fazer toalha, bolsa, chapéu, instrumentos musicais, brinquedos. Pôde mergulhar no assunto em uma pesquisa sugerida e compartilhada pelo coreógrafo Ivaldo Bertazzo: uma viagem a muitos pontos do Brasil para estudar o trabalho de mestresartesãos, que foram trazidos a São Paulo para ministrar oficinas e viraram tema de um livro-catálogo, em 2000. É em aventuras como essa que consegue ter uma medida da amplidão da mestiçagem no Brasil. Durante a viagem, notou que caiapós do Tocantins e artesãos caboclos do sul de Minas usavam a mesma técnica para fazer capas de chuva idênticas com buriti.
Na parede de seu estúdio, Matuck tem um mapa do Brasil cravado de alfinetes coloridos que registram os traçados de suas viagens. “A abundância fluvial e o complexo de bacias que se comunicam são inalcançáveis para o referencial europeu que ainda impera na discussão sobre a questão amazônica”, afirma. Cita outros sinais de incompreensão presentes nas discussões internacionais sobre o assunto, que, segundo ele, são reproduzidos nas universidades brasileiras. Um deles é a dificuldade de reconhecer como civilização organizações sociais que não se utilizam de pedras ou tijolos para construir suas casas, nem de estradas para viajar.
Ainda mais complicado é absorver, sem menosprezar, outras visões de mundo e outros parâmetros de conhecimento que surgem dessa rede de nações que se intercomunicam. A astronomia dos índios tucanos, por exemplo, em vez de estabelecer linhas retas entre os astros, procura nexos entre os espaços sem luz. É o que informa o astrônomo e historiador da ciência Waldir Thomazi Cardoso, um dos parceiros de Matuck. Os dois, inspirados por esse tipo de conhecimento que escapa ao racionalismo tradicional, criaram um Museu de Arte Interplanetária, exposição de artistas imaginários nascidos em planetas imaginários que esteve em cartaz há três anos em São Paulo e rendeu outras mostras, além de um livro homônimo para adultos (não comercializável) e um para crianças (Os viajantes de Gleb, Companhia das Letras, 1989). No museu, não há sequer referência ao planeta Terra.
Assim como o pensamento indígena inspira mundos imaginários ao artista, toda a informação sorvida nas viagens acaba entrando na feitura dos trabalhos que, de memória, ele realiza em São Paulo: gravuras em metal, esculturas em madeira, pintura com tinta acrílica e a óleo. Às vezes o suporte é quase neutro, submisso à imaginação do artista; em outras, o material se incorpora à percepção, com suas ranhuras, fibras e flexões.
E há também as ilustrações. “Geralmente me procuram por causa do que eu conheço”, diz. “Se vão fazer um livro sobre um animal da Amazônia, me chamam.” Trata-se de uma vocação antiga. O primeiro livro que ilustrou, ainda adolescente, foi um volume didático sobre citologia e genética. E neste momento Matuck está às voltas com um livro sobre a arara-azul, ave que corre risco de extinção. “Não consigo pensar arte sem pensar em ciência”, diz
“Lévi-Strauss fala de Tristes Trópicos. Triste é Paris. Os trópicos são maravilhosos”, diz Matuck. “A abundância fluvial amazônica e o complexo de bacias que se comunicam são inalcançáveis para o referencial europeu”
“A ecologia é uma questão minúscula”
Rubens Matuck começou a carreira de observador
da natureza quando criança. Primeiro,
nas férias que passava na fazenda de um tio em
Juquitiba, no sul do estado de São Paulo, onde
conheceu jaguatiricas e orquídeas de tamanho
milimétrico. Segundo, nas páginas dos gibis da
Disney, que traziam a seção Maravilhas da Natureza,
com fotos e informações sobre fauna e
flora do mundo todo. Até hoje ele paga tributo
a essa série em seus cadernos de viagem, que
têm, desde sua origem, um formato semelhante
ao das histórias em quadrinhos ou dos livros de
recorte, em que as imagens se espalham pela página
e são acompanhadas de algumas palavras.
Depois, já adulto, no início dos anos 70, teve a
idéia de plantar árvores na rua em que morava
no bairro paulistano da Vila Madalena. De início
as autoridades não gostaram da iniciativa do cidadão,
mas os vizinhos, sim. Logo a própria prefeitura
aderiu ao mutirão e o plantio se espalhou
pelas praças do bairro. A atividade comunitária
incluía, informalmente, estudo das espécies nativas
e procura de sementes (no chão do parque
Trianon, por exemplo) de plantas típicas da Mata
Atlântica: jacarandá, peroba, cabreúva, pau-marfim,
xixá, etc. Tudo catalogado, como é do feitio
de Matuck, para que as árvores recebam inspeções
periódicas de seu estado de saúde.
De muda em muda – montou um viveiro para elas na lavanderia de sua casa e doa aos interessados –, já plantou cerca de 2 mil árvores pelas ruas de São Paulo, que trouxeram de volta à Vila Madalena uma variedade de pássaros, do raro anu-branco a periquitos, sabiás e joões-de barro. Em 2004, foi homeageado no livro Rubens, o semeador, da amiga Ruth Rocha, ilustrado com suas aquarelas de árvores brasileiras.
Portanto, quando Matuck saiu em viagens pelo interior do Brasil, já era iniciado na ciência da observação da flora. “Mas eu ainda trabalho muito com essa idéia da natureza na cidade”, diz. “O ser humano é de um egocentrismo imenso. Acha que vai destruir o mundo, mas é uma espécie que vai acabar como qualquer outra. O impacto da presença do homem no mundo será irrisório. Por isso, as pessoas deviam cuidar da vida delas, usar a natureza para construir um lugar legal. É preciso ver a ecologia como uma questão pessoal, uma questão minúscula.”
