Um Escritor Brasileiro - Milton Hatoum

Por Marcelo Rubens Paiva  Fotos Everton Ballardin

Em sua obra premiada, Milton Hatoum volta sempre para a Amazônia. Na nova novela, Órfãos do Eldorado, a região ressurge no mito da cidade encantada, em negócios escusos envolvendo um cargueiro, na menina violentada. Nessa conversa, ele conta como se embrenha em suas tramas e lame nta que, em Manaus, ainda se morra de sede em frente ao rio-mar

Órfãos do Eldorado, novo livro de Milton Hatoum, apareceu na lista dos mais vendidos de ficção na semana do lançamento. Foi uma surpresa o premiado escritor amazonense (três Jabutis e um Portugal Telecom), radicado em São Paulo há uma década, no bairro de Pinheiros, ganhar popularidade. Seus quatro livros, que têm a Amazônia como pano de fundo, já venderam perto de 200 mil exemplares. Mas o autor não demonstra deslumbramento. Acorda cedo e trabalha numa edícula perto de onde mora com a mulher e filhos. Para não ser interrompido, diz que vai para Manaus. Fica de dois a quatro anos debruçado sobre o manuscrito, recebe conselhos da editora e troca informações com amigos. Nos encontramos num café de uma livraria perto da sua casa. Ele chegou a pé. Respondeu a todas as perguntas sem pressa. E ganhei um amigo.

Seus livros falam de uma Amazônia mágica, mas que se transformou, conheceu auges e decadências. Qual foi o período de maior transformação? A época da borracha ou agora?
São equivalentes. Antes da borracha, antes de 1880, Manaus era uma vila, uma cidade muito acanhada. Ganhou o primeiro projeto de urbanismo no fim do século 19. Aliás, muito bem feito: a cidade em 20 anos floresceu, com linha de esgoto, pontes, telefone. Já Belém sempre foi grandiosa. Em 1890, tinha mais de 30 consulados estrangeiros. A borracha era 40% da exportação. A borracha era a soja. O agronegócio. Agora é extrativismo.

Mas essa decadência é um pouco a mola mestra de seus livros.
É. Em Dois irmãos, Manaus é quase um personagem.

Dois irmãos, Orfãos do Eldorado, Cinzas do Norte. Você acha que o escritor sempre escreve o mesmo livro?
Eu acho que eles têm tendência a escrever uma biografia de espectros, de fantasmas. Se bem que eu, agora, estou um pouco saturado. Quero escrever sobre uma coisa completamente diferente. Acho que eu encerrei um ciclo, um capítulo longo, na Amazônia. Vou voltar a escrever sobre tudo aquilo, mas não agora. Aliás, Orfãos do Eldorado foi uma espécie de despedida. Até mesmo das esperanças. No fundo, acho que estamos órfãos de um futuro. Eldorado é um pouco Brasil, também. Esse governo seqüestrou nossos sonhos ou uma parte deles. Na relação com a Amazônia, está totalmente equivocado.

Essa política desenvolvimentista do Lula, você acha que é uma catástrofe para a Amazônia?
Eu acho. A combinação de pasto com soja, na floresta equatorial, é uma burrice.

«Orfãos do Eldorado foi uma espécie de despedida. Até mesmo das esperanças. No fundo, acho que estamos órfãos de um futuro. Esse governo seqüestrou uma parte de nossos sonhos. Eldorado é, um pouco, o Brasil» 

«Na classe média de Manaus, ser considerado índio é um ultraje. Há uma mística da cultura cabocla. Eu ouço muito isso, ‘nosso escritor caboclo’. Não sei o que significa. Sou um escritor brasileiro»


Agora, é engraçado. Todo mundo de lá que eu conheço diz que o que a Amazônia precisa é de desenvolvimento, esgoto, emprego, hidrelétrica. E que a gente aqui do Sul é que quer manter a Amazônia intacta. Você é de lá, mas acha o contrário.
Depende. Isso também é um efeito retórico. Ninguém quer a floresta intacta. A floresta não é intacta para o caboclo. O caboclo e o índio transformam a floresta em modo de vida. Eles extraem da floresta aquilo que precisam. Só que, quando um índio mata uma tartaruga, ele aproveita até o casco para fazer objetos, não joga nada fora, não destrói a floresta. Acho é que a vocação da floresta Amazônica não é soja, não é boi. O Otávio Ianni já dizia, nos anos 70, que é loucura transformar a floresta em pasto. Isso na época em que a Volkswagen começou a implantar os primeiros projetos de agropecuária na Amazônia. Acho que, por exemplo, há uma indústria que precisa ser explorada, a farmacêutica e a de cosméticos. A Natura, por exemplo, já começa a pensar em abrir uma fábrica, se já não abriu, em Manaus. A indústria de plantas medicinais e de alimentos em Manaus e Belém é pequena ainda, precisa de mais incentivo. Então, não é deixar intacto, mas também não é desmatar. Mas, como no Brasil não há nuances, você ou vai de um lado ou de outro. Existe essa esquizofrenia.

E essas ONGs internacionais que compram terras para mantêlas intactas?
Eu acho errado. Eu acho que tem que lutar por uma soberania do país. O Arthur Reis, primeiro governador do Amazonas, primeiro interventor, na verdade, do Castello Branco, era um historiador culto. Um homem de direita, mas um homem culto. Ele escreveu um livrinho nos anos 50 chamado A Amazônia e a cobiça internacional. Na época, todo mundo achou um delírio; pensamento da Escola Superior de Guerra. Mas isso existe. Ela tem a maior reserva de minério do mundo, de gás, de água doce. Madeira é o que é visível. Agora, o que está no subsolo é que vai ser o grande…

Eldorado?

Um Eldorado infinito. De trilhões de dólares.

Se se descobre minério numa terra indígena, por exemplo, você acha que deve explorar ou deixar intacta?
Eu acho que isso depende de negociação. As pessoas já não pensam mais no diálogo. Sobre Raposa Serra do Sol, dizem, “querem dar um terço do estado para os índios”. Não é assim. A propriedade é do Estado. É como se fosse uma casa que o pai deixa para o filho em usufruto. Você pode usar por tempo indeterminado, mas os subsolos pertencem à União. Hoje, os índios não estão interessados em ter uma vida pobre, querem conforto. Se eles querem explorar a terra, o Estado vai dar um alvará e eles vão fazer acordos com as empresas. Quantas tribos já fazem isso? Dezenas. Tem tribos que se mecanizaram com o agronegócio. Agora, isso é uma opção de quem, deles? Se for uma coisa estratégica, de soberania, o Estado deve negociar. Se houver um problema de fronteira, o Estado pode ocupar as fronteiras; deve, por segurança nacional. Então, uma coisa não exclui a outra. Porque parece que a gente está entregando a terra para uma ONG, como se os índios fossem uma ONG internacional. Não, eles são brasileiros. Os índios são brasileiros. Agora, eu acho que há ONGs piratas, há ONGs liberadoras, há ONGs espiãs, há ONGs evangélicas, de extrema direita, há tudo isso.

E você concorda com essas reservas que são do tamanho de um estado, como as do Ianomami? Isso garante soberania ou você acha que tem que separar essas reservas?
Os Ianomami estão lá há mais de 500 anos. Os arrozeiros chegaram há 20 anos, do Rio Grande do Sul e do Paraná. Então, eles não têm nenhum laço afetivo, histórico com a região. Agora, a área dos Ianomami é um terço de Roraima. Mas, como eu disse, não é um território livre dos Ianomami; é usufruto. O Estado pode entrar, quando quiser. Inclusive para proteger os Ianomami. É um paradoxo, mas quem vai proteger os Ianomami? Quem protege os índios do Alto Rio Negro? Quem leva medicamentos, médicos? Dizer que a FAB é predadora, isso é mentira. A Aeronáutica tem um papel importantíssimo na região de fronteira. Importantíssimo. Pergunte aos índios do Alto Rio Negro se eles querem que a FAB saia de lá, o Exército. Tem médico militar, enfermeiro, tem engenheiro. Eu acho que não são coisas conflitantes. O que está no centro, e acaba escamoteado pelo debate, é a ganância desses grandes proprietários, desses latifúndios na Amazônia.

Você conheceu Manaus antes da Zona Franca, ou não?
A Zona Franca é de 1967. Eu nasci em 1952, passei a juventude em Manaus e exatamente em 67 fui morar em Brasília. Manaus antes e depois da Zona Franca são duas cidades totalmente diferentes. Manaus não tinha favelas, tinha bairros pobres. A partir da década de 80, virou o maior pólo eletroeletrônico da América Latina, e começou a atrair milhares de brasileiros em busca de trabalho. Como nesse país não tem planejamento, até hoje, quem chega, desmata. Há uma indústria da invasão. Faz um banheirinho aqui, uma fossa rasa, uma coisa degradante. Os governos, ao longo de 40 anos, não investiram a riqueza da Zona Franca na infra-estrutura urbana. Então, há bairros na periferia que não têm água, e isso a cinco quilômetros do maior rio do mundo. Uma piada. Manaus tem mais de 50% de favelados. Já há favelas no outro lado do rio. As pessoas atravessam o rio Tarumã de canoa, pagam R$ 2 para trabalhar em Manaus e voltam para essa área de floresta invadida. Existe uma Amazônia que está sendo devastada por causa do pasto e da soja; e existe uma floresta, na periferia das cidades, que está sendo desmatada pela indústria da invasão. Para colher os miseráveis que vêm do Maranhão, do Pará e do interior da Amazônia. Vêm da terra do Sarney, onde o desemprego é máximo. Hoje há até preconceito em Manaus contra paraense e maranhense.

Ainda sobrevive em Manaus a mitologia da cidade encantada?

Na periferia de Manaus moram muitos índios, ninguém sabe quantos. Dizem entre 10 e 50 mil. Mas a força dessa mitologia, que vem do interior, de regiões mais isoladas, está presente; na oralidade, nas plantas medicinais. A maioria da população ainda usa plantas medicinais para curar algum tipo de doença. Isso é muito comum no Amazonas e não desapareceu em Manaus. Há uma esquizofrenia: ao mesmo tempo em que as pessoas querem esquecer, não conseguem esquecer. Elas querem acreditar no progresso, mas que progresso? Eu não acredito que a industrialização traga progresso forçosamente. 

«Os governos, ao longo de 40 anos,
não investiram a riqueza da Zona
Franca na infra-estrutura urbana.
Então, em Manaus há bairros na
periferia que não têm água, e isso
a cinco quilômetros do maior rio
do mundo. Uma piada»

O baiano é um povo que se orgulha da sua origem africana. O amazonenseíndia também cultua sua cultura ?
Olha, sem saber e sem querer, o amazonense tem traços profundamente indígenas. Na cultura, nos alimentos, na rede em que dorme, no vocabulário. Mas, se ele for chamado de índio, é um insulto. O paraense é mais orgulhoso da sua tradição. O índio foi sempre, desde a época colonial, considerado o bugre, o selvagem, o bárbaro – na verdade, o bárbaro era o outro. É por isso que eu acho brilhantes os ensaios do Eduardo Viveiros de Castro. Ele desconstrói isso. O índio hoje sabe qual foi o papel histórico dele, de resistência, de genocídio. Pela primeira vez, pode dizer: “Essa terra é nossa”. Agora, na classe média de Manaus, ser considerado índio é um ultraje. Há uma mística da cultura cabocla. Eu ouço muito isso: “Ah, esse é o nosso escritor caboclo”. Não sei o que isso significa. Sou um escritor brasileiro. Tenho história lá, mas também em São Paulo, na França, na Espanha.

Mas, seus temas sempre vêm de lá.

Vêm de lá, mas, se você prestar atenção, é alguém que está lá. Em Cinzas do Norte, o narrador conta a história de um amigo que quis ser vadio. Foi para o Rio de Janeiro, depois foi à Europa. Em Dois irmãos, um dos irmãos vem para São Paulo. Em Orfãos do Eldorado, o cargueiro Eldorado tem uma relação com o exterior; o mundo europeu que chega em Manaus. Manaus sempre teve esse cosmopolitismo. E as culturas não são isoladas. Essa é uma das lições do Edward Said em Orientalismo. O Oriente não é separado do Ocidente.

Você está pouco a pouco se transformando num escritor popular. Como começou a conquistar o mercado?
Cada livro tem uma história. Meu primeiro romance, por três, quatro anos, não saiu da prateleira. Depois, acho que ele começou a ser lido pelas escolas. Então, hoje ele tem 25 mil exemplares, em quase 20 anos. Dois irmãos foi um salto. Quer dizer, em dois anos, pros padrões brasileiros, 60 mil exemplares. É bastante. Acho que o leitor gosta, é envolvido pela narrativa, pelos conflitos que vão se desenvolvendo na família. Os dois irmãos vão mudando, vão alternando até mesmo a personalidade de um e de outro. E tem a identidade do pai, o mistério de quem é o pai.

O pai é um fantasma poderoso.
É o chefe. O estado autoritário. Eu acho que esse pai simbólico está muito arraigado na alma brasileira. Aquele que chega e que diz, “eu vou fazer isso, vou expoliar e explorar, até onde não der mais, e vocês vão obedecer, por bem ou por mal”. É a postura do colonizador.

Eu acho que, na sua literatura, a família está sempre em debate. A família é mais importante do que a Amazônia.
Concordo. Eu acho que a família, o drama familiar, ele é mais forte do que a própria região. Porque eu não sou um amazonense da floresta, da beira do rio, do interior. Sou um amazonense urbano. É isso que as pessoas não entendem: na Amazônia, 80% da população mora em cidades. Manaus tem tudo, até vôo para Miami direto!

Sua literatura é econômica, precisa. O crítico Daniel Piza diz que os escritores brasileiros recebem influências de outros, como de Machado de Assis ou Guimarães Rosa. Mas disse que você é o único que não se encaixa nesse time. Como você escreve? É concentrado, se tranca, vai frase por frase? Ou é visceral, joga a história toda e depois elabora?
A primera intenção é essa. Eu nem consigo ler direito, não entendo nem minha caligrafia, às vezes.

Escreve à mão?
Escrevo à mão, vou enchendo os cadernos, nem olho pra trás. Quando vejo que quase não estou entendendo mais nada do que está acontecendo, passo para o computador. Sempre escrevo o começo e o fim antes. Se eu não souber como o negócio vai terminar… Se eu sei que o cara vai morrer, aí é o processo, precisa escrever o resto, ou seja, como é que ele vai morrer. Então, eu faço primeiro a abertura e imagino um fim possível. Às vezes, muda. As personagens vão surgindo. Agora, tem um pouco de projeto. Antes, eu faço esquemas. Fui arquiteto algum dia na minha vida, então tenho essa coisa de fazer um esboço de algumas personagens. Quem é essa personagem. Mas elas mudam, algumas desaparecem, outras adquirem relevo. Aí, depois, quando eu passo para o computador, começa uma trabalheira infernal.

Só no parágrafo por parágrafo, linha por linha, palavra por palavra?
No estilete. Às vezes, me dá até uma ojeriza daquilo. Sempre economizando. Não, eu tenho tendência a aumentar; foi o meu martírio em Eldorado. Tinha um limite de contrato de não escrever mais de 25 mil palavras. Mas, no fim, a conselho de um amigo e da minha mulher, ainda tirei a última página. No último minuto. Com o livro indo para a gráfica.