Glossário
Ambiente
JabutiLendas populares invariavelmente atribuem ao bicho uma personalidade malandra, sabida e ardilosa, que o ajuda a escapar das armadilhas de animais e homens. Entre as várias espécies que habitam a Amazônia, o jabuti-piranga, com 50 cm, corresponde mais à descrição do que o jabuti-tinga, classificado como espécie vulnerável pela IUCN. Na cozinha amazônica, o jabuti é menos apreciado do que a tartaruga e o muçuã, de carne mais tenra. Mas serve de ingrediente ao pachicá, guisado de fígado e banana verde, e ao sarapatel, que leva patas, miúdos e tripas. |
TracajáCom manchas amarelas na cabeça, chega a 68 centímetros e 8 quilos. Desova na areia ou no mato, em ninhos escondidos – mas não o suficiente. Seus ovos, assim como a carne, são parte da cultura culinária amazônica. A coleta sem regra levou a espécie à Lista Vermelha da União Internacional pela Conservação da Natureza (IUCN) de 2004, classificada como vulnerável. Agora é objeto de programas de repovoamento na Amazônia, e a criação para fins comerciais está autorizada. |
MuçuãBastante agressiva para uma tartaruguinha de 15 centímetros, é muito comum nos campos da Ilha do Marajó (PA), embora ocorra do Panamá ao norte da América do Sul. A caça e a coleta indiscriminada de ovos ameaçam a espécie. A captura é crime inafiançável, e só alguns criatórios têm autorização do Ibama para comercializá-la. O casquinho de muçuã é uma iguaria: o bicho é cozido vivo com casco; depois, a carne é catada e temperada. De volta ao casco, vai para a mesa coberto com farofa. |
TartarugaMaior quelônio de água doce da América do Sul, chega a pesar 80 quilos e a ter 80 cm por 60 cm de carapaça. Originária dos rios da Amazônia, vive mais de 100 anos. É símbolo da culinária da região. Os ovos são comidos crus, com farinha, no arabu, ou levemente cozidos. A carne, que pode ser assada no próprio casco, tem sabor delicado e, segundo especialistas, dispensa limão e vinagre. Tripas, gordura e sangue são usados em guisados, picadinho e sarapatel. A criação comercial é liberada pelo Ibama. Para os órgãos internacionais, a espécie depende de medidas de conservação. |
Formigade- fogo ou lavapés (Wasmannia auropunctata)Pequena e agressiva, ataca às centenas, rapidamente, se o formigueiro for perturbado. Sua picada é dolorosa e o veneno pode causar alergia. Constrói ninhos no chão e em árvores. Atraída por matéria orgânica, infesta roupas, camas, fiações e até cidades inteiras, como registrado em Envira e Novo Airão, no Amazonas. |
Formigalouca- urbana (Paratrechina longicornis)Marrom-escura ou preta, tem antenas longas. Anda em ziguezague ou semicírculos, comendo doces, pães, ovos, carnes, frutas. Nas cidades, faz ninhos em prédios e atrás de janelas, forros de estuque e pedras de paredes e calçadas. |
Saúva (Atta)Cortadeiras, picotam folhas e sementes para alimentar os fungos que criam nos formigueiros. Têm cabeça grande e cor avermelhada. A espécie foi usada por cientistas em estudo recente que relaciona a diversidade amazônica ao surgimento de ecossistemas isolados, pela inundação da floresta. |
Tocandira (Paraponera clavata)É negra e chega a quase três centímetros. Sua picada é extremamente dolorosa e o veneno pode causar edema, vômitos e taquicardia. Algumas tribos usam a formiga em ritos de passagem, para testar a resistência de jovens índios à dor. A falsa-tocandira (Dinoponera gigantea) é uma das maiores formigas do mundo: pode chegar a quatro centímetros. |
Guariba (Alouatta belzebu)Comum no Amazonas e no Pará, é um dos maiores macacos do Brasil; o macho chega a 75 centímetros e a oito quilos. Sobrevive em áreas pequenas, mas é muito caçado. Seu ronco coletivo é um dos sons mais característicos da floresta. |
Macaco-barrigudo (Lagothrix lagotricha)É numeroso perto dos rios Negro e Tapajós, mas também na Colômbia e no Peru. O rabo o ajuda a deslocar-se; apesar da barriga protuberante e do porte (chega a setenta centímetros e a dez quilos), dá saltos incríveis. Dócil, é muito caçado, o que ameaça a espécie. |
Macaco-da-noite (Aotus infulatus)Com olhos enormes, que usa para enxergar e distinguir cores no escuro, é o único macaco de hábitos noturnos do mundo, à exceção de lêmures africanos e asiáticos. Pequeno, tem trinta centímetros e faixas brancas e avermelhadas na pelagem. |
Cultura
Cidade encantadaEntre os ribeirinhos, é recorrente a crença em uma cidade submersa, rica e feliz, guardada por uma cobra grande e ardilosa; quem se dispõe a chegar lá, mas desiste antes, enlouquece. O mito guarda ecos da cidade de ouro que o colonizador buscou obsessivamente na Amazônia, e lembra a lenda jesuítica de Sapucaia-roca, cidade rica, com palácios de ouro e ruas de pedras preciosas, que é sepultada no rio por Tupã por causa das bebedeiras e danças lascivas de seus habitantes. |
As AmazonasGuerreiras que viviam só entre mulheres, eram as guardiãs da muiraquitã, amuleto de pedra verde em forma de rã ou tartaruga, que retiravam do lago Jamundá em noites de lua. A lenda nasce da corrida que o explorador espanhol Francisco Orellana levou de uma tribo de índias icamiabas, em 1541, quando navegava de Quito a Belém em busca de ouro. “Andam nuas em pêlo, com seus arcos e flechas nas mãos, fazendo tanta guerra como dez índios”, escreveu o frei Gaspar Carvajal. O nome que os europeus deram ao Amazonas se refere às guerreiras da tribo mitológica da grega Hipólita, que atrofiavam um seio para manejar melhor as armas. |
BotoReza a lenda que, em noite de festa, o golfinho amazônico se transforma em homem e, usando roupa branca e um chapéu para esconder o furo na cabeça por onde respira, seduz e engravida a moça mais bonita que encontra. Também se diz que o mamífero persegue as mulheres que viajam por rios e igarapés, sobretudo quando estão menstruadas, e tenta virar seu barco para levá-las a uma cidade submersa. |
UirapuruO pássaro de canto melodioso inspirou uma sinfonia de Heitor Villa-Lobos e lendas diversas. Em uma delas, um jovem guerreiro se apaixona pela esposa de um cacique e, diante da impossibilidade do amor, pede a Tupã para ser transformado no uirapuru. Por fazer silenciar as outras aves quando canta, o uirapuru é considerado de bom agouro: diz-se que traz sorte em amor e negócios. |
IaraO nome, indígena, significa senhora das águas. Meio peixe, meio mulher, a sereia amazônica vive em rios e igarapés sombrios. Com seu canto e sua beleza, atrai homens prestes a casar e os arrasta para o fundo dos rios, afogando-os. Também rapta crianças, que reemergem das águas anos depois, com poderes xamânicos. |
IracemaEm Iracema, uma transa amazônica (Jorge Bodanzky, 1974), uma índia de quinze anos se prostitui em Belém e encontra o caminhoneiro Tião Brasil Grande (Paulo Cesar Peréio). Rodado contra um fundo que é puro documentário – cenas reais de queimadas, desmatamento, grilagem e miséria –, ia na contramão da propaganda oficial que tentava rimar Transamazônica e progresso. Foi censurado e levou sete anos para chegar aos cinemas. Vale a pena ver ou rever o filme que fez Fernando Meirelles trocar a arquitetura pelo cinema. |
AritanaNa novela de Ivani Ribeiro, exibida pela Rede Tupi entre 1978 e 1979, Carlos Alberto Riccelli era o filho de uma índia do Xingu e de um homem branco. Traído pelo tio, fazendeiro rico que se dispõe a vender terras indígenas a um grupo norte-americano, Aritana vem para a cidade grande defender seu povo. Escrita com assessoria dos irmãos sertanistas Villas Bôas. O personagem-título foi inspirado no cacique yualapiti homônimo, com quem Riccelli conviveu por meses. |
TaináNuma Amazônia de sonhos adolescentes, onde ecologistas boa-pinta vivem em barcos high-tech e traficantes de animais silvestres se revelam tremendos trapalhões, uma indiazinha kirimbau, interpretada por Eunice Baía, ensina crianças brancas a respeitar a natureza. Tainá, uma aventura na Amazônia (2000) e Tainá 2, a aventura continua (2004) levaram 1,7 milhão de pessoas aos cinemas. O terceiro episódio da saga está previsto para 2010. |
CarapirúNo fim dos anos 1970, um índio guajá escapa de um ataque surpresa de fazendeiros que dizima sua tribo, no Maranhão. Depois de perambular dez anos pelo Brasil central, foi capturado em 1988, a 2 mil quilômetros da aldeia. Levado pelo sertanista Sydney Possuelo a Brasília, reencontrou um filho, que julgava morto. Em Serras da desordem (2006), marco do documentário brasileiro, Andrea Tonacci faz o próprio Carapirú reencenar sua história. Possuelo colabora no roteiro. |
MaturuanãGrafismo usado em cestaria e na pintura corporal pelos wayana do Amapá e do Pará, representa uma lagarta sobrenatural de duas cabeças que, nos mitos do povo, circula pela mata e come gente. Variantes do desenho representam os pelos, seios, pés e mãos da criatura. |
TayngavaPoderoso grafismo dos asurini, do Xingu, representa o ser humano como possuidor da força cósmica que anima homens, espíritos, xamãs e animais (ynga). Na pintura corporal, o encaixe de suas formas opostas produz um efeito óptico. Também aparece em cerâmicas e cabaças. |
Comida
PirarucuO maior peixe de escama de água doce do mundo chega a 3 metros e 100 quilos. O nome vem do tupi pira (peixe) e urucu (fruto do qual se extrai tinta vermelha). A carne avermelhada, de sabor marcante, é muito apreciada. As postas são vendidas frescas ou salgadas, e daí o peixe ser conhecido como “bacalhau da Amazônia”. Como faz ninhos para cuidar dos filhotes e sobe à tona freqüentemente para respirar, é presa fácil de pescadores, que o capturam com rede ou arpão. Com a espécie em perigo, a pesca é proibida em toda a Amazônia: só podem ser vendidos até 30% da população adulta de áreas de manejo autorizadas pelo Ibama. |
TambaquiSegundo maior peixe de escamas do Brasil, chega a 30 quilos. Na natureza, come frutos, castanhas, sementes e caramujos na época da cheia; quando as águas baixam, faz jejum até livrar-se da gordura acumulada. A principal espécie amazônica cultivada em cativeiro no país, tem uma carne de sabor especial, que é preparada na brasa. |
TucunaréOriginário da Amazônia, é abundante nas bacias Amazônica e Araguaia-Tocantins. Com dorso escuro e escamas prateadas, é um dos peixes prediletos na culinária amazônica; sua carne é servida em caldeiradas com farinha de uarini. Avesso a águas frias, ou abaixo de 16 graus, o tucunaré come peixes e crustáceos. Por ser um predador voraz, de grande agilidade, é um troféu especial na pesca esportiva. O tucunaré-açu, em especial, atrai praticantes do mundo inteiro. |
TamuatáTambém é conhecido como cascudo, por causa da couraça que lhe dá um ar pré-histórico. A carne, amarela, é tenra e saborosa. Para retirar |
FilhoteO nome designa a piraíba quando jovem, ou até chegar aos 20 quilos. O peixe de couro, muito abundante no Pará, chega a 100 quilos na fase adulta, mas sua carne torna-se fibrosa. De pele acinzentada, cabeça grande e olhos pequenos, o filhote tem carne tenra, cujo sabor está na base da mais tradicional moqueca paraense, além de outros pratos. |
Paca (Cuniculus paca)Saborosíssima, sua carne é iguaria para os apreciadores da caça. Roedor de cerca de sessenta centímetros, tem pêlo eriçado, faixas com manchas brancas nas costas, faro apurado e unhas afiadas. É pega à noite, quando sai da toca em busca de frutas ou raízes. Boa nadadora, foge para a água quando acossada. Cada fêmea tem só um filhote por gestação. Apesar de não estar ameaçada, a espécie já foi mais farta. |
Jacaréaçu (Melanosuchus niger)É o maior jacaré da fauna brasileira e o único que só ocorre na Amazônia. Chega a seis metros e trezentos quilos e pode estraçalhar pequenos mamíferos com seus oitenta dentes. Vive oitenta anos. Proibida em 1967, sua caça ainda é comum nos rios Solimões, Japurá, Purus e Amazonas. A espécie esteve ameaçada; hoje, segundo o Inpa, a população é estável. |
Tatucanastra (Priodontes giganteus)Maior tatu do mundo, chega a medir 1,5 metro e a pesar sessenta quilos. Mamífero, sem dentes, usa suas unhas de quinze centímetros para escavar tocas. Alimenta-se de aranhas, cupins, formigas, répteis, vegetais. A carapaça, resistente, é usada para fazer utensílios. Está ameaçado de extinção e sua caça, proibida. |
Capivara (Hydrochaeris hydrochaeris)O nome vem do tupi kapi’wara, “comedor de capim”. Maior roedor do mundo, é dócil e adora água, da qual precisa para se esfriar, já que tem poucas glândulas sudoríparas. Usa seus grandes incisivos para roer espigas de milho e raízes. A carne, saborosa, magra e nutritiva, tem textura semelhante à do porco. |
Caititu (Tayassu tajacu)Importante fonte alimentar nas regiões rurais, é um porco do mato, semelhante ao javali. Ameaçado pela caça predatória e pela fragmentação do hábitat, está escasseando. Mamífero, alimenta-se de frutos, castanhas e raízes. Quando alarmado, eriça os pêlos e emite um cheiro forte. |
Cupuaçu (Theobroma grandiflorum)Da família do cacau, tem sabor ácido, marcante. Compota e geleia são clássicos no Norte; no resto do país, o sorvete e o bombom se tornam conhecidos. Gafe: o Brasil cedeu à Asahi Foods, do Japão, o direito de vender a marca cupuaçu. Teve de brigar para reverter |
Bacuri (Platonia insignis)Dá no Brasil todo, mas o Pará concentra mais bacurizeiros. Perfumado e levemente azedo, faz um sorvete espetacular. No início do século 20, o barão do Rio Branco o adotou como sobremesa nos banquetes do Itamaraty, onde é presença até hoje. |
Viagem
BatelãoBarcaça ou canoa robusta de madeira, de fundo chato, pode ser movida a remo ou motor. Usada para transportar gado e no comércio, é o barco dos regatões, mercadores fluviais que levam todo tipo de gênero (cachaça, querosene, sal, gás, tecidos, roupas, bugigangas, utensílios) para serem vendidos ou trocados com as comunidades de furos e igarapés longínquos, numa modalidade de comércio praticada desde o século 16. |
GaiolaInteiro de madeira e com aberturas laterais para ventilação, transporta passageiros e gêneros pelos rios da região. Em geral tem dois andares e espaço para pendurar redes de dormir. Os maiores, chamados de chata ou vaticano, oferecem camarotes e podem acomodar duas centenas de pessoas. Os primeiros gaiolas eram de construção inglesa ou holandesa, e tinham roda d’água e caldeira à lenha. Hoje, são movidos a hélice. |
CanoaLargas ou longas, as canoas constituem um dos meios de transporte mais comuns na Amazônia. Movidas a remo, são esculpidas em grandes troncos de árvores locais. Foi a bordo de canoas que o padre Antônio Vieira comandou um grupo de jesuítas na primeira grande expedição missionária à região, navegando 780 quilômetros pelo Tocantins em 1653. |
Montaria, pirogaUm dos legados dos índios ao colonizador, a montaria é uma canoa pequena, escavada a fogo em um tronco. Ainda menor, a piroga é feita com casca de pau ou madeira leve, dos quais mantém o formato. Mais toscas e ágeis, estas canoas são ideais para cruzar o labirinto de vegetação dos igarapés. |
PopopôCanoa coberta, deve o nome onamotopéico ao barulho produzido por seu motor de dois tempos, que fica na popa. Serve para transportar pessoas e mercadorias em travessias curtas. Em Belém, podem ser vistos diariamente na baía da Guajará, trazendo açaí, pescado e outros gêneros das ilhas que rodeiam a cidade para o mercado do Ver-o-Peso. |
Pupunha (Bactris gasipaes)Palmeira nativa, produz frutos de sabor agradável e alto valor nutritivo, usados em saladas, cremes e sopas. A coloração da casca varia do vermelho intenso ao alaranjado, amarelo e rajado. O palmito, que chega a quarenta centímetros, surge como alternativa mais sustentável ao de espécies de crescimento mais lento. |
Miriti (Mauritia flexuosa)Também conhecida como buriti, é uma palmeira esbelta, de até 35 metros, comum em áreas inundadas, várzeas e igapós. Por causa das fibras finas e longas da medula, muito usadas para artesanato, é chamada de “isopor da Amazônia”. A palmeira fêmea gera um fruto vermelho de polpa muito oleosa. |
RioCurso de água com mais de trinta metros de largura, que deságua no mar, num lago ou em um rio maior. A bacia amazônica, formada pelo Amazonas e seus 7 mil afluentes, concentra dez dos maiores do mundo e 60% dos trechos de rio navegáveis do Brasil. |
FuroCanal que separa duas ilhas, liga dois rios ou escoa água de um lago para um rio. Como o igarapé, está submetido ao regime dos rios maiores, e sobe e desce com eles. Alguns têm as margens pontuadas por casas, que se sucedem como em uma rua. |
